O que acontece entre o nascimento e a morte: Reflexões de uma psicóloga nos seus 48 anos

Todos nós temos uma história. Uma biografia nominal, intransferível, única.

Quando olhamos para a vida de alguém de fora, a tendência humana é enxergar apenas os recortes bonitos: as alegrias, as conquistas, os sucessos e as vitórias. No entanto, o tecido da existência é feito de dualidades. Nenhuma biografia está completa sem os seus desafios, suas dores, tristezas, dramas e conflitos.

Com a minha história não é diferente. Às vezes, existe uma fantasia de que nós, psicólogos, somos seres iluminados, desprovidos de sofrimento ou imunes às “rasteiras da vida”. Ledo engano.

“Quem escolheria como carreira ouvir os dramas humanos, senão alguém que os conhece muito bem?” — Rosa Cukier, psicodramatista

Minha trajetória na Psicologia começou muito antes do vestibular; começou na escola da própria vida.

Onde o chão tremeu pela primeira vez

Nasci em Porto Alegre, em uma manhã fria de 1978 — gosto de brincar que sou do século passado, uma alma analógica. Fui a primeira filha de pais jovens e recém-casados. Aos seis anos, nos mudamos para Viamão.

Foi na escola, aos sete anos, que descobri meu amor pelos livros, pelo estudo e pela escrita. Mas foi também naquele mesmo ano, exatamente no dia do meu exame de leitura, que meu chão tremeu pela primeira vez: meu pai passou pela primeira de muitas cirurgias para tratar um carcinoma basocelular infiltrativo.

Ali começava a longa e transformadora caminhada de um paciente oncológico e de sua família.

Convivi com o câncer do meu pai até 1996, ano em que ele faleceu devido às complicações da doença. Apenas seis meses depois, impulsionada por tudo o que vivi e pelo desejo profundo de compreender a dimensão humana, prestei vestibular para Psicologia. Passei.

Em 1997, iniciei uma jornada universitária integral, intensa e feliz. Eu amava estudar. Viajei, festejei, aprendi. Logo após a formatura, mergulhei na pós-graduação em Psicologia Clínica com formação em Gestalt-terapia. Foram anos dourados de investimento massivo na carreira.

Construindo os dias de sol

Mas a vida, em sua sabedoria, nos lembra que não somos feitos apenas de trabalho. Após consolidar meu espaço profissional, decidi que era hora de investir na vida pessoal. Foi quando conheci o Rafael. Meu esposo, meu lindo querido.

Vivemos um namoro e um noivado dos sonhos, coroados por um casamento que parecia saído de um conto de fadas. Cinco anos depois, nossa vida ganhou um novo sentido com a chegada da nossa “ursinha peposa”, a Laura.

A maternidade coincidiu com a mudança para o apartamento que vínhamos pagando desde 2009. Foi um período de tempestade financeira e exaustão, mas o Rafa sempre me lembrava: “Somos muito bons juntos e nunca tivemos medo do trabalho”. E, de fato, juntos nós nos reorganizamos.

Anos mais tarde, realizamos o sonho dele de reformar completamente o meu consultório. Era o início de 2020, estávamos na pandemia, e nenhum de nós dois poderia prever que o maior desafio de nossas vidas estava dobrando a esquina.

Quando o mundo presumido ruiu

Em março de 2021, o Rafa recebeu o diagnóstico de Covid-19. Em apenas 21 dias, ele veio a óbito.

O meu mundo presumido ruiu. Caí em um poço sem fundo. Costumo dizer, sem metáforas românticas, que fui ao inferno e visitei aquele lugar algumas vezes nos anos que se seguiram. A dor da perda do Rafa é singular porque ele ocupava múltiplos papéis na minha vida.

O luto não é uma linha reta; é um território acidentado.

No dia 1º de junho, eu completo 48 anos. E comemorar o aniversário desde então se tornou uma tarefa complexa, habitada por uma profunda ambiguidade. Como celebrar a vida quando a morte levou quem mais amávamos?

“A polaridade da morte é o nascimento. A vida é o que acontece entre.” — Ana Claudia Quintana Arantes, médica paliativista

Sempre lidei com a morte de perto — como filha, como psicóloga paliativista e, agora, como esposa —, e sei que cada vínculo dita uma forma única da saudade.

O direito de continuar vivendo o “entre”

Mas seguir é compulsório. É necessário. E assim eu tenho seguido.

Não sozinha, mas sustentada por uma rede de apoio incrível, pela nossa filha Laura — o fruto mais lindo desse amor —, pela nossa pet Amora (meu bichinho de suporte emocional), pelos meus queridos pacientes que confiam no meu trabalho, pelos meus amigos e, fundamentalmente, por mim mesma. Afinal, o Rafa detestava me ver chorar e me admirava muito.

Hoje, aos 48 anos, olho para trás e gosto da mulher que vejo no espelho. Gosto de quem estou me tornando a cada dia. Olho para a minha biografia e reconheço o valor do que construí — não apenas os tijolos materiais, mas os alicerces emocionais, os laços de amizade e o respeito profissional. Sei exatamente de onde vim e valorizo onde estou.

A menina que gostava de ler aos sete anos ainda vive em mim. Ainda amo a música, a arte, as fotografias, os filmes, a arquitetura, o estudo e, acima de tudo, as pessoas.

Os planos para o amanhã mudaram, eu mudei, mas o desejo de contribuir com o próximo e com o universo permanece intacto. Celebrar este aniversário é, no fundo, uma forma de agradecer por tudo o que recebi e recebo todos os dias.

A vida acontece no “entre”, e eu escolho continuar vivendo a minha com toda a honestidade e coragem que ela merece.