O Paradoxo da Etiqueta: Preço, Valor e a Fina Linha entre Posicionamento e Arrogância

Neste primeiro semestre do ano tenho estado muito reflexiva sobre esse tema: preços, valores, barganha… quanto custa, o que é barato e o que é caro. Aí ouço: “é uma questão de posicionamento”. Mas o que é se posicionar? De que forma fazer isso sem parecer arrogante? Gostaria de compartilhar com você alguns pensamentos. Topa?

É um fenômeno curioso (cômico, se não fosse trágico) observar como a nossa sociedade lida com a régua do “caro” e do “barato”. Não pestanejamos ao pagar o preço cobrado pelo pintor para pintar nossa casa, ou para o mecânico que descobre a origem daquele barulho estranho no motor do carro. Compreendemos, sem questionar, que a alta gastronomia cobra pela experiência, e não apenas pelos ingredientes no prato (esses dias em São Paulo, soube que um menu degustação em um restaurante com duas estrelas Michelin está custando em média R$ 1.900,00). É caro? Não sei… caro para quem? O valor da experiência, no entanto, é incalculável.

Contudo, quando o assunto é saúde e adoecimento psíquico — a nossa capacidade de lidar com a dor, o luto, as transições e dificuldades da vida —, o cenário muda. De repente, a cultura da barganha entra em cena. Além disso, temos uma ideia enraizada de que o psicólogo é “quem ajuda”, e questionamos: “vamos cobrar para ajudar o outro?”.

Como psicóloga clínica há mais de duas décadas, tenho observado essa dinâmica com uma mistura de perplexidade e senso crítico. Existe uma confusão crônica, e muito disseminada, entre custo e valor.

Custo é um número em uma planilha. É a transação financeira pura e simples. Valor é o que você leva para a vida. É a transformação, o estancamento de um sangramento emocional grave, a reelaboração de um luto agudo.

Na minha atuação como psicóloga e psicoterapeuta, lidando diariamente com o adoecimento grave e a finitude, o conceito de valor ganha contornos ainda mais profundos. Quanto vale um espaço seguro para desabar quando o resto do mundo exige que você seja forte? Qual é a métrica para precificar o acompanhamento de uma família inteira que navega pela tempestade de uma doença crônica ou que não sabe manejar uma situação complexa?

A Armadilha da Arrogância vs. A Clareza do Posicionamento

Quando um profissional de saúde mental se posiciona de forma firme sobre o valor do seu trabalho, não é incomum que seja lido como “arrogante”. Mas precisamos separar as coisas de uma vez por todas.

Arrogância é a necessidade de se colocar acima do outro. É o distanciamento afetivo, o olhar de cima para baixo, a crença de que o conhecimento técnico o torna um ser humano superior. A arrogância afasta, diminui e, na clínica, é completamente iatrogênica (causa danos).

Posicionamento, por outro lado, é maturidade. É saber exatamente o lugar que você ocupa. É o respeito por si mesmo, pelos anos ininterruptos de estudo, pela supervisão constante, pelas noites de sono atravessadas pela dor que esteve presente naquele atendimento, ou ainda pela mensagem e ligação atendidas em um momento de desespero.

Reconhecer o próprio valor não é um ato de vaidade; é um ato de coerência. Se eu não valorizo o instrumento do meu trabalho — que sou eu mesma, minha escuta, minha presença, meu conhecimento e minha ética —, como poderei ensinar meu paciente a reconhecer o seu próprio valor e o valor da sua vida?

O Peso do Invisível

A ironia ácida de tudo isso é que a Psicologia trabalha com o invisível. Não entregamos um exame de imagem com a foto do problema resolvido. Não prescrevemos pílulas coloridas que prometem silenciar a angústia em trinta minutos (ah, as pílulas também custam, e há medicações de alto custo).

Nós entregamos presença, escuta qualificada, sustentação e técnica refinada em momentos onde o chão desapareceu.

Testar os limites do profissional e questionar o investimento na terapia enquanto se consome vorazmente alívios imediatos e efêmeros diz muito sobre o que nós, como sociedade, estamos priorizando.

Você já parou para se questionar: o que é prioridade para você hoje na sua vida?

Um grande e carinhoso abraço.