As luzes brancas do corredor do hospital não piscam,
mas meus olhos sim, pesados de um sono que não cura.
Naqueles dias de mundo parado e UTIs lotadas,
(re)aprendi a medir a vida em minutos e sem fôlego,
enquanto o medo batia na porta da minha casa.
Dizem que minha escuta é cura,
mas era difícil ouvir o silencio que ensurdecia, os gritos e a dor de quem perdia para a doença
ou para a eterna saudade.
O burnout não foi um incêndio de um dia só;
foi o fogo lento de uma pandemia sem fim,
que consumia sonhos e virava cinzas.
E no meio do caos, onde salvávamos tantos,
eu perdi meu porto seguro, meu lindo querido.
A depressão aqui já não tinha o rosto do cansaço,
ela tinha o teu rosto, o teu silêncio, a tua ausência.
Como cuidar do mundo se o meu mundo presumido ruiu?
Como oferecer escuta e acolhimento, se a metade da minha alma se foi com você?
Sou uma heroína de vidro em um castelo de ferro,
estilhaçando em silêncio entre um atendimento e um choro contido.
Cuidar de quem cuida é o verso que falta na nossa rima,
especialmente quando o luto se mistura a profissão,
e a saudade se torna um paciente que nunca receberá alta.
Hoje, minha respiração não é mecânica,
é uma busca por ar em um quarto e uma casa que ainda tem o seu cheiro.
Pois por trás de quem acolhe, existe alguém que também precisa,
desesperadamente, de uma mão que apenas segure a sua mão.
Cristine Santini, psicóloga e psicoterapeuta, com 24 anos de formação na área clinica e hospitalar, que em março de 2021, durante a pandemia COVID 19, perdeu seu esposo, pai da nossa filha Laura, em 17 dias, sendo 13 de UTI, onde nenhuma das medidas terapêuticas instituídas alterou o curso da doença (um paciente em cuidados paliativos?!). Rafael Santini, faleceu em 23 de março de 2021, aos 38 anos. Um ciclista, que praticava atividade física regular para poder andar de bike, seu grande Hobby, ou seja, sem nenhuma comorbidade (como sempre perguntam). Analista de sistemas, estudante na segunda graduação (em matemática), um carioca/catarinense, que parte deixando família, sonhos e muitos planos inacabados.