Todo dia alguém morre, assim como todos os dias alguém nasce. Ontem, recebi a notícia do falecimento de uma pessoa muito querida pela nossa comunidade, aos 63 anos. Quase ao mesmo tempo, soube da partida abrupta de uma jovem em um acidente de moto. Pouco depois, uma mensagem no celular: uma paciente me contava que a mãe havia entrado em processo ativo de morte.
É… parece mesmo que todo dia alguém morre. E como sentimos isso? Como percebemos e vivemos a proximidade constante do fim?
As Três Certezas e a Ventilação Mecânica do Passado
Ao nascermos, carregamos conosco três grandes certezas: todos nós vamos morrer, todos nós vamos sofrer e, inevitavelmente, faremos alguém sofrer. A grande questão que se impõe diante dessa constatação inegável não é sobre o fim em si, mas sim: sabendo disso, como escolhemos viver?
No último sábado, tive o prazer de ouvir a médica Ana Claudia Quintana Arantes, que trouxe uma reflexão muito pertinente sobre as nossas “mortes simbólicas”. A verdade é que nós não somos mais quem éramos ontem. Diariamente, perdemos pessoas, encerramos ciclos e nos despedimos de experiências que ficam no passado.
No entanto, por vezes, a nossa dificuldade em aceitar a transitoriedade da vida nos faz insistir em manter esse passado ligado a aparelhos, em “ventilação mecânica”, para que ele sobreviva a qualquer custo.
O Sentido Mora no Ordinário
Precisamos lembrar: o lugar do passado é no passado. O presente é o hoje. A polaridade da morte é o nascimento, e a vida é exatamente aquilo que existe entre eles.
Diante dessa brevidade, como temos vivido esse espaço de tempo que nos é concedido? Temos desperdiçado nossa energia nos comparando, rivalizando ou invejando o outro? Quero deixar aqui um desafio para você que está lendo este texto agora: o que você já fez de útil no dia de hoje? Por você e por alguém?
Muitas vezes, acreditamos que o que dá sentido à nossa existência são os grandes feitos, mas, na clínica e na vida, aprendemos que o sentido mora no ordinário. O extraordinário é um bom dia dado com um sorriso sincero ou aquele abraço demorado. Significa enviar uma mensagem de feliz aniversário para celebrar o dia em que alguém nasceu. Pode ser também o ato de oferecer uma palavra de apoio ou ter a presença de espírito de tomar um café da manhã com calma, saboreando o instante.
O sentido está no afeto e no afeto correspondido.
Para Quem Atravessa o Deserto
Para aqueles que, no dia de hoje, choram a perda de alguém que amam, eu sei bem que não existem palavras que acalmem ou acalentem o coração de imediato. Não é verdade que a dor da perda “passa” com o tempo.
A dor não encolhe; somos nós que nos expandimos ao redor dela.
Ela se acomoda e encontra um novo lugar para morar dentro de nós. Pode demorar, mas ela encontra.
A você, que atravessa esse deserto, sinta-se abraçado. E lembre-se: o “azar” de sentir saudade está intimamente e inevitavelmente ligado à imensa sorte de se ter amado.
Um grande e carinhoso abraço.