O Avesso do Laço Materno: Um Manifesto Sobre a Exaustão e o Dia das Mães

O Avesso do Laço Materno: Um Manifesto Sobre a Exaustão Materna e o Dia das Mães. Dizem que o amor de mãe tudo suporta. Mas ninguém nos perguntou por que, afinal, precisamos suportar tanto.
Ouço diariamente no consultório o relato de mulheres exaustas, culpadas por não serem perfeitas ou por não conseguirem educar seus filhos como dizem que deveriam. No Dia das Mães, as vitrines celebram a doçura. A data tornou-se mais um marco comercial em um mundo capitalista, mas os olhos, no espelho do banheiro às seis da manhã, contam outra história — muito menos doce ou romanceada.

A carga mental e as exigências da maternidade moderna

A maternidade moderna virou um palanque de exigências impossíveis. Esperam que a gente trabalhe como se não tivéssemos filhos e que cuide dos filhos como se não trabalhássemos. Esperam que a gente tenha um corpo que não pareça ter abrigado a vida e uma mente que não sucumba ao barulho constante das demandas: as da maternidade, as do trabalho, as sociais e tantas outras.
A exaustão de hoje não é apenas física; é mental. É a “carga cognitiva” de lembrar o dia da vacina, o tamanho do sapato que já apertou, o item que acabou na despensa e os prazos do trabalho que vence amanhã. É um cansaço que o sono não cura, porque a culpa insiste em acordar antes de nós.
A culpa, essa vizinha indesejada, mudou-se para o peito sem pedir licença. Culpa por perder a paciência… culpa por querer, por um instante, estar em qualquer lugar onde ninguém chame pelo nosso nome… culpa por achar que não estamos fazendo o suficiente quando, na verdade, estamos fazendo o impossível com o pouco que nos restou de energia e tempo.

O amor não anula o cansaço (nem a culpa)

A verdade é que o amor não anula o cansaço. Sentir-se exausta não faz de você menos mãe. Querer silêncio não diminui o amor que você sente pelo barulho dos passos deles na casa.
Que neste Dia das Mães, antes das flores e dos cartões coloridos, venha o reconhecimento. Não o da “super-mulher”, porque capas de super-heróis são pesadas demais para quem já carrega o mundo no colo e nos ombros. Que venha o direito de dizer: “Eu estou cansada”. E que, ao dizer isso, a gente não encontre julgamento, mas mãos dispostas a dividir o peso. Homens e parceiros dispostos a participar e exercer o cuidado, e não apenas “ajudar”.
A maternidade real é bela, sim, mas é feita de carne, osso e limites. Respeitar esses limites é o maior ato de amor que podemos ter conosco mesmas.
Que o nosso maior presente hoje seja a aceitação. A aceitação por não sermos a mãe da propaganda de margarina, a mãe da rede social ou a mãe que o manual de educação positiva descreve, que o mundo exige e que nós mesmas nos cobramos. A esperança mora justamente no momento em que decidimos baixar a guarda e aceitar que somos humanas. Quando respeitamos nossos limites, ensinamos nossos filhos sobre o respeito. Quando escolhemos o descanso em vez da perfeição, mostramos a eles que a vida não precisa ser um sacrifício constante, mas uma jornada onde o bem-estar também tem lugar e que ninguém é perfeito.

O resgate: cuidando da mulher por trás da mãe

Por isso, meu convite para você hoje é um retorno para casa — “para dentro de si”. Que você possa encontrar pequenas frestas de silêncio para ouvir sua própria voz. Que você entenda que cuidar de si não é um ato de egoísmo, mas de preservação. Afinal, para guiar esses pequenos pela vida, precisamos primeiro estar vivas em nós mesmas.
Respire. Tente deixar a louça para depois. Peça auxílio — e que esse pedido de auxílio tenha eco e escuta. Diga: “agora eu não posso” ou “eu não quero”. Cuide da mulher que existe por trás da mãe. Porque um amor que cuida de tudo, mas esquece de quem o carrega, é um amor que sufoca. É um amor feito de sacrifícios que, lá no futuro, podem gerar cobranças amargas.
Que o seu Dia das Mães seja sobre ser amada, sim, mas, acima de tudo, sobre permitir-se ser inteira. Com todas as suas sombras, cansaços e, principalmente, suas imensas belezas.
Um Feliz Dia das Mães para nós!